PERSONA NOTABILIS | Pad'Zé
Foi a 15 de abril de 1877, em Joanes, no concelho do Fundão, que nasceu Alberto António da Silva Costa. Filho da Beira interior, cedo enveredou nos caminhos do saber, entrando em 1895 na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Trazia consigo a marca do seminário onde estudara, e foi daí que nasceu o epíteto que o acompanharia para sempre: “Padre Zé”, abreviado na oralidade estudantil para Pad’Zé.
Em Coimbra, não foi apenas estudante, afirmou-se como um espírito inquieto, crítico mordaz e voz incómoda. Apenas dois anos após entrar na Universidade de Coimbra, foi expulso por ter posto em causa o lente de filosofia Teixeira Bastos. Antes disso, vivera intensamente a boémia estudantil coimbrã: passeava pela Baixa, acompanhava serenatas, participava em pequenas bulhas e cultivava uma presença irreverente no quotidiano académico. Foi, porém, sobretudo pela agudeza do seu humor que se destacou. As suas piadas e anedotas, em que caricaturava com rara mestria lentes e estudantes, expondo-lhes fraquezas, ridículos e manias, deram-lhe uma notoriedade singular no meio universitário. Para escapar à prisão, partiu para São Tomé, onde permaneceu durante dois anos como gerente de uma roça, experiência que contribuiu para consolidar as suas simpatias republicanas. Regressado ao meio académico, ficou principalmente conhecido pela obra humorística O Livro do Doutor Assis, sátira contundente à organização educativa da Universidade e, em particular, ao seu corpo docente. O título era uma alusão direta ao professor António de Assis Teixeira de Magalhães, símbolo de um sistema que Pad’Zé ousou questionar. Entre a ironia e o sarcasmo, expôs vícios, denunciou rotinas e confrontou o conformismo académico.
Foi também um dos principais responsáveis pela organização do “Centenário da Sebenta”, momento marcante da vida estudantil coimbrã. Nesse período, e também de modo a angariar algumas quantias, afirmou-se como jornalista, assumindo a autoria da “Revista do Civil”. Esta revista, que escrevia nas aulas de Direito, destinava-se sobretudo aos estudantes do Ensino Superior, onde a crítica, o humor e a intervenção cívica se entrelaçavam.
Para além da atividade jornalística, Pad’Zé exerceu também, nos últimos anos de vida, a sua profissão de advogado em Lisboa, conciliando essa prática com o trabalho na imprensa e com a intensa intervenção intelectual que marcou o seu percurso. Contudo, não terá alcançado grande sucesso nesta carreira, em parte porque muitos não o levavam inteiramente a sério, encarando-o sobretudo como uma figura humorística, marcada pela irreverência e pela sátira que o tornaram conhecido.
Alberto Costa foi ainda redator do jornal “O Mundo”, cuja redação ficaria para sempre associada à sua história pessoal. Foi nesse local que, pouco depois da meia noite do dia 3 de dezembro de 1908, se ouviu um estampido que marcaria tragicamente o seu destino. Antes disso, deixara uma carta dirigida a França Borges, diretor do jornal, na qual escrevia: “D'outra vida não faço ideia nenhuma. Se eu puder, escrevo e escreverei com tanta solicitude artigos, críticas, crónicas, notas, que v. há de espantar-se da minha regeneração e dizer aos amigos: agora é que eu queria apanhá-lo cá.”. Nessa mesma carta afirmava que chegara a sua hora, sem, contudo, apresentar explicações, por considerar “não valer a pena”.
Assim, a vida de Pad’Zé, intensa, boémia e marcada por conflitos, terminaria tragicamente em Lisboa, com o seu suicidio na redação de “O Mundo”. A notícia causou profunda comoção: o corpo foi exposto na sede do jornal, acompanhado por figuras destacadas do meio jornalístico e republicano, e o funeral, realizado civilmente por sua expressa determinação, foi recordado por contemporâneos como uma verdadeira “consagração”, sinal do forte impacto público da sua morte.
Quanto às razões do suicídio, não existe uma explicação consensual. Houve quem afastasse de imediato as hipóteses de motivação política, amorosa ou financeira, houve quem aludisse apenas a “causas que elle não quiz communicar a ninguém”, e houve ainda quem interpretasse a tragédia como o resultado de uma fratura íntima entre Alberto Costa e o mito de Pad’Zé, entre o homem que pretendia afirmar-se como advogado e jornalista e a personagem boémia, satírica e irreverente que o país aprendera a aclamar. Nesse sentido, a sua morte pode ser interpretada como o desfecho de uma existência atravessada por conflitos constantes: a expulsão de Coimbra após o confronto com Teixeira Bastos, a passagem forçada por São Tomé, a militância republicana, os tumultos de rua e uma persistente dificuldade em encaixar nas convenções do seu tempo.
A sua morte precoce não apagou o eco da sua irreverência. Pelo contrário, cristalizou a imagem de um homem que desafiou a estrutura académica com inteligência e coragem.
Pad’Zé permanece como símbolo da crítica livre, exemplo de como o humor pode ser uma arma séria contra a estagnação. Entre a sátira, a intervenção e a recusa do conformismo, deixou o seu nome inscrito na memória estudantil como figura singular da história universitária portuguesa. Hoje, mais do que recordá-lo como mera personagem de um tempo passado, importa reconhecer na sua herança um convite permanente ao pensamento crítico e à liberdade de questionar.
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