Cortejo da Latada

As Latadas são festas académicas antigas, que surgiram na cidade de Coimbra, em meados do século XIX. Contudo, existem registos de que as suas raízes podem remontar ao século XVI, associando-se às “Soiças”, cortejos ruidosos organizados por estudantes, que acabaram por ser proibidos em 1541 devido aos desacatos que provocavam.

Tradicionalmente, cada Faculdade realizava a sua Latada consoante a data do último exame, culminando em vários eventos a partir do mês de maio. Durante a noite, os Caloiros percorriam as ruas com tachos, latas, cornetas, gaitas e penicos, com o objetivo de fazer barulho e importunar os colegas que ainda não tinham terminado o ano letivo. Do barulho provocado surgiu o nome e nasceu uma tradição fortemente integrada nos Festejos da Queima das Fitas, que ocorriam na mesma altura no final do ano letivo.

A participação no Cortejo da Latada trazia vantagens, tal como a “proteção das Latas”, que conferia a liberdade aos Caloiros de sair à noite sem as restrições habituais, constituindo uma exceção às regras de horário então vigentes.

No entanto, durante o Cortejo, os Caloiros eram sujeitos a diversas provocações dos Doutores, que procuravam destruir os seus apetrechos, batendo nas latas com mocas e colheres de Praxe, ou mesmo exigindo-lhes, por exemplo, que estendessem o penico de modo a ser usado como cinzeiro. Quando um Caloiro ficava sem latas e sem penico, perdia a proteção que estes lhe conferiam e era rapado no próprio local.

O final da celebração culminava na emancipação dos Caloiros, que subiam de Grau Hierárquico.

Toda esta algazarra provocava bastante incómodo na cidade de Coimbra, originando conflitos entre os Estudantes e a Polícia. Em 1901, os Lentes da Universidade de Coimbra deliberaram a uniformização do calendário académico, determinando que as aulas terminariam simultaneamente nos diferentes cursos, eliminando, assim, a principal razão para a realização das sucessivas Latadas a partir de maio.

Em 1935, devido à crescente concentração dos festejos académicos no final do ano dos Quartanistas, as Latadas deixaram de se realizar no final do ano letivo, interrompendo temporariamente a tradição de emancipação dos Caloiros nesta altura. Só na transição para a década de 1950 é que as Latadas regressaram à vida académica de Coimbra, mas com um formato renovado: passaram a realizar-se no início do ano letivo e ficaram associadas à Cerimónia de Imposição de Insígnias, durante a qual os Quartanistas Grelados impunham o Grelo na sua Pasta e os Fitados passavam a exibir as suas Fitas ao longo de todo o ano. Na época, realizavam-se cinco Latadas, uma por cada Faculdade então existente, Medicina, Direito, Ciências, Letras e Farmácia, distribuídas por diferentes dias após o término dos exames de outubro.

Nesta nova fase da tradição, o Cortejo passou a ter passagem obrigatória pelo Mercado D. Pedro V, onde se comprava o Nabo. Os Caloiros encontrados pelo caminho eram mobilizados para o Cortejo e aqueles que trajassem com Batina deviam vesti-la do avesso. 

Além disso, no contexto político do Estado Novo, sob a vigilância da PIDE, o Cortejo da Latada adquiriu um forte caráter satírico, à semelhança dos Cortejos da Queima das Fitas, passando os Caloiros a servir de “porta-cartazes”, para apresentar sátiras e críticas ao regime. Estas Latadas realizaram-se até 1969, ano em que foram interrompidas no contexto do Luto Académico.

Em 1981, a Direção-Geral organizou a “Semana de Receção ao Caloiro”, que decorreu sem o tradicional Cortejo. A iniciativa gerou forte contestação entre os estudantes, que criticaram o modelo e defenderam o regresso das antigas tradições praxísticas. Foi neste contexto de recuperação da Praxe Académica que surgiu a atual Festa das Latas e Imposição de Insígnias. Atualmente, em Coimbra, o evento decorre no mês de outubro, iniciando com a Serenata ao Caloiro, seguindo-se o Cortejo e culminando no tradicional batismo no rio Mondego.

Na cidade de Lisboa, o Cortejo da Latada, mais concretamente, o Cortejo da Latada da Academia de Lisboa, foi realizado pela primeira vez a 24 de setembro de 2014, tendo contado com a participação da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa e do Instituto Superior Técnico. Atualmente, realiza-se no final do mês de setembro e conta com a participação das Casas da Academia de Lisboa, nomeadamente, as anteriormente referidas, a Faculdade de Psicologia e Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, bem como o Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa.

Contudo, existem registos de Cortejos da Latada em Lisboa desde 2002/2003. Estes eram organizados por cursos isolados, existindo, por exemplo, registos de Cortejos da Latada apenas com o curso de Licenciatura em Engenharia Informática e de Computadores do Instituto Superior Técnico.  (Figura 1)

Na Academia de Lisboa, o Cortejo da Latada tornou-se um momento que alia a tradição à reivindicação e a irreverência à crítica social.

Através de cartazes e representações satíricas, os Estudantes dão voz às suas preocupações, transformando as ruas num espaço de contestação e reflexão sobre a realidade que os rodeia. Simultaneamente, o Cortejo da Latada celebra a chegada dos Caloiros à Academia de Lisboa, apresentando-os à cidade de Lisboa e marcando o início de uma nova etapa no seu percurso académico. 

Com início no Instituto Superior Técnico e término no Terreiro do Paço, o Cortejo percorre as ruas de Lisboa, levando consigo as aspirações e inquietações de uma Academia inteira. 

Fig.1. - 2002 LEIC Fig.2. - 2026 FML no Terreiro do Paço

 









Fig.3. - 2026 FML no Instituto Superior Técnico da Universidade Lisboa


Referências

Sobre · Festa das Latas 2026 


Festa das Latas e Imposição de Insígnias – AAC


Notas&Melodias 




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